Muitos adultos convivem por anos com dificuldades persistentes de concentração, organização, impulsividade e instabilidade emocional. Em geral, atribuem esses problemas à personalidade, à falta de disciplina ou ao excesso de responsabilidades. Tentam se organizar melhor, prometem mudar hábitos, fazem listas que logo abandonam. Apesar do esforço, os mesmos obstáculos retornam.
Em uma parcela significativa desses casos, o problema não é falta de empenho. Trata-se de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), uma condição neurobiológica real, frequente e amplamente estudada. Quando corretamente diagnosticado e tratado, o TDAH adulto apresenta excelente resposta terapêutica.
Sou Matheus Botelho, médico psiquiatra, formado pela UFMG, com ampla experiência no cuidado em saúde mental, incluindo quadros de ansiedade persistente, complexa e de difícil manejo.
Acredito que, por trás de cada diagnóstico, existe uma pessoa única, com histórias, desafios e sonhos.
Minha missão vai além de aliviar sintomas. Busco oferecer um cuidado humano, respeitoso e personalizado, baseado em evidências científicas e ajustado às necessidades individuais.
Aqui, você encontrará um espaço seguro, acolhedor e livre de julgamentos, onde sua história será ouvida com atenção e empatia.
Juntos, podemos construir um caminho com mais equilíbrio emocional, funcionalidade e bem-estar.
O TDAH em adultos vai muito além da dificuldade de atenção. Atualmente, compreende-se o transtorno como uma alteração do autocontrole, envolvendo prejuízos nas chamadas funções executivas do cérebro. Essas funções são responsáveis por organizar comportamentos ao longo do tempo, planejar ações, regular impulsos, controlar emoções e sustentar esforços em tarefas que não oferecem recompensa imediata.
Na prática clínica, isso faz com que o adulto com TDAH tenha grande dificuldade em lidar com prazos, metas de médio e longo prazo e responsabilidades contínuas. O funcionamento mental tende a ficar excessivamente preso ao presente, com menor capacidade de antecipar consequências futuras.
Não se trata de desinteresse, preguiça ou imaturidade, mas de um padrão específico de funcionamento cerebral.
Os sintomas do TDAH adulto costumam se manifestar de forma menos chamativa do que na infância, porém com impacto funcional significativo.
A desatenção aparece como dificuldade em manter foco em tarefas prolongadas, especialmente quando são repetitivas ou pouco estimulantes. É comum iniciar várias atividades ao mesmo tempo, com dificuldade de finalizá-las, além de esquecimentos frequentes de compromissos, prazos e obrigações importantes.
A impulsividade se expressa nas decisões do dia a dia. Muitos pacientes relatam agir antes de pensar, gastar dinheiro de forma impulsiva, interromper conversas ou assumir compromissos sem avaliar as consequências. Com frequência, o arrependimento surge apenas depois da ação.
Outro aspecto central, muitas vezes subestimado, é a regulação emocional. Irritabilidade fácil, baixa tolerância à frustração, explosões emocionais e sensação constante de sobrecarga são queixas comuns.
Importante destacar que nem todo adulto com TDAH apresenta hiperatividade visível. Na vida adulta, ela tende a se transformar em inquietação interna, ansiedade motora ou necessidade constante de estímulo.
O TDAH tem início na infância, mesmo que o diagnóstico não tenha sido feito nessa fase. Com o passar dos anos, os sintomas mudam de forma, mas não desaparecem espontaneamente.
Na vida adulta, os prejuízos tornam-se mais complexos, afetando desempenho profissional, relacionamentos, finanças, saúde física e autoestima.
Sem tratamento adequado, muitos adultos com TDAH desenvolvem a sensação persistente de estar sempre aquém do próprio potencial, apesar de esforço intenso.
O transtorno não tem cura no sentido clássico, mas pode ser controlado de forma eficaz com acompanhamento especializado.
As pesquisas mostram que o TDAH está associado a alterações no funcionamento do córtex pré-frontal, região responsável pelas funções executivas. O cérebro do paciente com TDAH possui capacidade intelectual preservada, mas apresenta dificuldade em ativar e sustentar mecanismos de controle justamente nos momentos em que eles são mais necessários.
Uma analogia frequente na clínica ajuda a compreender esse processo: é como ter um carro potente, mas com freios e GPS que funcionam de maneira inconsistente.
Isso explica por que esforço isolado, motivação ou inteligência raramente são suficientes para compensar os sintomas.
O tratamento não medicamentoso do TDAH não se baseia em força de vontade ou dicas genéricas de produtividade. Ele envolve estratégias estruturadas, trabalhadas de forma progressiva e personalizada durante as consultas.
Um dos primeiros passos é a psicoeducação, que ajuda o paciente a compreender como o transtorno afeta seu funcionamento mental e comportamental, reduzindo culpa e aumentando adesão ao tratamento.
Em consulta, são desenvolvidas estratégias práticas de organização externa, gestão do tempo e fracionamento de tarefas, além de técnicas para controle da impulsividade e regulação emocional.
A psicoterapia cognitivo-comportamental adaptada ao TDAH costuma ter papel importante, especialmente quando integrada ao acompanhamento psiquiátrico. Essas intervenções precisam ser ajustadas ao longo do tempo, conforme a rotina, as demandas e a fase de vida do paciente.
O tratamento medicamentoso é uma das intervenções com maior nível de evidência na psiquiatria. Quando bem indicado e acompanhado por psiquiatra experiente, ele melhora de forma significativa a atenção, a impulsividade e a capacidade de organização, além de facilitar a aplicação das estratégias comportamentais aprendidas em consulta.
A medicação não altera a personalidade do paciente. Seu papel é permitir que o cérebro funcione de maneira mais consistente, reduzindo o desgaste emocional crônico e favorecendo mudanças reais no cotidiano.
A avaliação especializada é indicada quando os sintomas existem desde a infância ou adolescência, causam prejuízo profissional, emocional ou social e nunca responderam apenas a esforço pessoal.
A sensação constante de atraso, desorganização e frustração recorrente também são sinais de alerta.
O diagnóstico correto não rotula — ele organiza o tratamento e retira a culpa.
O TDAH em adultos é um dos transtornos psiquiátricos mais estudados e mais tratáveis quando conduzido adequadamente. Uma avaliação especializada permite compreender o quadro, diferenciar o TDAH de outras condições, definir o plano terapêutico mais adequado e acompanhar a evolução ao longo do tempo.